06 Novembro 2008

Carta do inimigo

Odiado ser,

Das muitas formas de dizer o que tenho a dizer, prefiro esta. Por ser eterna. Sabes bem que gostaria de ter a visão de você a sete palmos abaixo do chão.
Devo dizer que a sua simples presença tem me causado asco e simplesmente não me anima o fato de você me conhecer a fundo.
Tendo em vista o que já disse, gostaria de dizer que comprei uma nova Katana.
Não por querer cortar um bife, podar um bonsai (apesar de ser bem difícil) mas por ter como meta de vida um dia decepar sua cabeça. Ou rasgar seu abdomen.
Não tendo paciência para conviver com sua imbecil pessoa, me descambei para o Aterro do Flamengo, onde as pessoas me vêem todo o dia praticando com minha espada.
É bem verdade que alguns me consideram maluco, mas isso definitivamente está longe de ser verdade. Talvez eu só seja um pouco psicótico.

A Katana é afiada e outro dia tive a sorte de cortar o rabo de um poddle incauto que passava. Pena que não certei sua glote. O ar nefando do Aterro inspira. Podia ser pior, como o do lixão de Jardim Gramacho...
Contudo, as pessoas não me permitem praticar um bom assassinato sem que eu seja notadamente preso. Por conta disso, decidi matar pombos com a Katana. Suja a pobre espada de sangue e penas pútridas é fato, mas juro que é divertido. Porque enquanto faço isso penso em você.
É uma pena que ainda não pude me vingar de você. Mas o mundo dá voltas caro inimigo e um dia você esbarrará comigo no Aterro e mandarei sua cabeça de presente para os abutres do lixão.
Gostaria só de ressaltar um ditado popular que diz assim:
"A vingança é um prato que se come frio".

Tudo de pior para o resto de sua vida...

16 Outubro 2008

Esqueçam o que já escrevi.

Agora tudo será diferente.

21 Setembro 2008

da loucura e da sanidade

Talvez hoje o mundo esteja devagar.
Eu divagar.
E os outros sejam meros fantoches de Deus.
Caso o mundo pare eu estou preparado para o solavanco divino...

E enquanto muitos fingem sanidade,
Eu já perdi há muito
Junto com a pretensa santidade
Ainda assumo meu eu com cautela

Mudo, assisto a trama bela do exterior
De mim vejo o tratar de bolhas de pensar
Estouro elas com um sopro, são. medo. não.
Do externo nutro aversão pois hoje sou insano.

E pensar em nada é meu mote
Hoje sou outro que não eu
E o eu de mim se foi no exterior
De um pensamento que não é parte de mim...

E o que me resta é sobreviver
Não acredito em mais nada
Não acredito no que vem da minha pessoa
E muito menos acredito em você

E enquanto tudo gira lentamente
Eu vou me lembrando que vim a esse mundo
Para um dia morrer
Como o que escrevo,
Que tem prazo de validade
E dia contado para viver.

01 Junho 2008

Lágrima de sangue

Aquele dia seria marcante. Sentir o último suspiro alheio. Ir ao enterro. Nada compensaria a dor sentida pela morte. Todos morriam em torno de Gabriel. Não podia conter mais seus amigos da vila. Cada qual morria, quando não literalmente, ao menos socialmente. Joca e Mathias trocaram tiros...e eram vizinhos. Ambos queriam tomar o morro. Não, não haveria espaço para o grupo paramilitar proto-fascista e para a faccção comercializadora de drogas consideradas ilícitas. Mais tarde chegaria Lucas com seus companheiros de trabalho do BOPE. Todos os três eram da mesma sala, moraram na mesma vila com Gabriel. Morriam Teresa e Maria agora no claustro, não mais se viam como antes. A vida permissiva que levavam a três na vila estava morta. Ambas agora eram noivas de Deus. Morria Dona Candida, que agora ia morar na casa do filho em outro estado. Morria Seu Júlio e sua obsessão por consertar velhos equipamentos eletrônicos. Estava sempre na casa de alguém consertando e nem era seu trabalho! Trabalhava em uma birosca perto da vila. Seu Júlio morreu de cirrose. Para ele pouco importavam seus sonhos premonitorios, como este em que sonhava que o três amigos morreriam em um conflito sangrento. Pouco importava sua habilidade já notável com o cirílico. Às favas com a habilidade linguística. Queria não estar na faculdade e ver paz e igualdade ao seu redor. Mas era difícil. Voltaria para casa vendo todo o mar de vazio que se espraia nas ruas. Solvendo o gosto salgado da lágrima que caia do seu olho esquerdo, via a multidão de dentro do ônibus. Os muitos despossuídos, muito mais que ele. Os mendigos. Via ao passar em frente daquele manicômio, a caminho de sua casa, o retrato do descaso. Volta e meia barulhos, gritos e sussuros. A loucura não cutuca, ela entra pelos poros. E mais excluídos. E pensava na massa de pessoas discriminadas por tanto motivo torpe...Não, o mundo não era justo.

E o mundo tirara dele algo que ele sempre quis por perto. Seu pai. Todos sabem que a ordem natural das coisas é os filhos viverem mais que os pais. Mas Gabriel não tinha mãe e seu pai era seu guru. Tinha lhe mostrado como ser um homem honesto, que luta pela causa dos injustiçados (ele inclusive), ensinou o filho a ser. Em nada poderia retribuir ao pai. O caixão exalava um cheiro ruim, o podre do corpo morto misturado ao cheiro de rosas. Uma abelha rondava o local, em meio aos amigos que ainda restavam a Gabriel, que tentavam consolá-lo. A abelha pousava constantemente na boca de seu pai, como a tentar anunciar algo.

Cansado e triste ele voltou pra casa. Na vila. Quis se mudar pois nunca o tinha feito. Quis fechar os olhos e lembrar de seu sonho que teve aos 12 anos, na Rússia. Dificilmente viajaria para lá, não tinha condições financeiras para tanto. Teve impeto súbito de se matar, que passou. Parou na janela e fora de casa o céu estava profundamente estrelado. Será que quando as pessoas morrem elas viram estrelas? Pensou Gabriel. Não, não podia ser. E veio a abelha do enterro para dentro de sua casa. Ele tentava espantá-la mas não conseguia. Até que a abelha parou em um canto da casa que o pai sempre sentava, onde ele costumava ler o jornal inclusive. A abelha sumiu de repente causando profundo espanto em Gabriel que agora via a figura fantasmagórica de seu pai. A voz do pai ecoava com força na cabeça dele:

- Onde esteve se encondendo durante os anos que estive vivo filho? Você precisa crescer, você precisa assumir sua meta de vida...
- Mas pai....eu estou confuso....como posso dar rumo a mim mesmo não sabendo ao certo aonde meus passos irão me levar?
- Filho, não se esqueça que o tempo passa e o mundo não irá esperar você tomar uma atitude...A temperatura do mundo aumenta, a miséria se expande, o ódio entre etnias se difunde, as crenças se tornam cada vez mais rígidas...Você irá assistir a isso tudo sem fazer nada?
- Pai eu sou uma gota no oceano....
- Não filho, você é a faísca que começa o incêndio. Mas ainda não descobriu isso. Eu preciso ir agora, o mundo conta com você.

Gabriel chorou imediatamente após a saída de seu pai. Foi ao espelho no banheiro e sua lágrima que escorria pelo olho direito era vermelha. Quando a lágrima tocou seus lábios percebeu que era de sangue. Resolveu que era bom ir no hospital. Não parava de lacrimejar sangue. Foi internado e o sangue agora saía pelos dois olhos. Ao perceber isso o médico chefe do hospital colheu o sangue de seus olhos. E lhe deu um remédio para dormir. Mas a dose foi grande e Gabriel entrou em coma profundo. Acordou vinte anos depois. O mesmo médico o acordou dizendo que seu sangue tinha passado por muitos teste e apresentava uma composição genética inexplicavelmente curadora. E pediu para que ele doasse sangue. Gabriel acordou e começou a doar sangue. Na noite desse dia não haveria mais o sangue milagroso. Seu sangue produziria a cura para a AIDS mas em compensação, durante a doação de sangue uma abelha pousaria em seu braço lhe picando. Gabriel era letalmente alérgico a picadas de abelhas. Este então morreria, deixando ao mundo a cura de uma grande epidemia.

22 Maio 2008

Post em homenagem às minhas duas leitoras

Não,
O blog não mais está morto. Tomou um eletro-choque e despertou de um enfarto fortíssimo.

Olhei os posts mais antigos e vi que as pessoas não têm paciência de ler coisas longas. O segundo ponto é que as pessoas gostam de colorido nas linhas do blog. E quanto ao conteúdo? As pessoas preferem aquilo que seja mais simples. Lendo meus posts pensei nisso, através das respostas das pessoas. Mas esse blog não foi feito para nivelar o leitor por baixo. Ele não merece isso.
Machado de Assis no início de Memórias Póstumas de Brás Cubas se não me engano, critica o excesso de leitores para Stendhal, ironiza isso. O que é a quantidade em face da qualidade? Fico feliz por ter duas leitoras. Talvez por piedade elas leiam o que tem escrito aqui. Talvez elas por não terem algo pior para ler do que as linhas deste blog, acabem por aqui. Aqui neste circo de idéias, neste circo de tramas e pessoas que leêm um post e nunca mais. O mundo é um circo. O mundo é um show da mulher barbada e do domador de feras.
Aqui nesse circo que é O Pulo do Tigre, nada se mantém. O Pulo do Tigre não é similar ao domador, mas está muito mais próximo da parte do mágico no circo. Mágico/ilusionista, seja lá o nome que queira-se dar.
Então espero que as minhas leitoras sejam fiéis mesmo, não acabem indo embora.

Senão para que escrever? Seria melhor só pensar.

O escritor só existe porque alguém é gentil o suficiente para ouvir essa pessoa que escreve. Esse alguém é solidário o suficiente para comentar as idéias, tramas, ensejos, e eteceteras de um escritor ou escritora. Por isso deixo meus aplausos a quem já passou aqui, e meus aplausos de pé para quem passou e permaneceu.

OBRIGADO.

23 Abril 2008

O que é e o que deveria ser.

Sabia que o dia em que eu me encontrasse pensando sobre o futuro novamente eu teria que escrever aqui. É calamitosa a vida do brasileiro. Não bastasse a alta desigualdade, a enorme violência urbana, a má distribuição de terras, e a mentalidade perversa e mesquinha que parece ser a estabelecida no senso comum.

Hoje, estupefato pude constatar que temos agora uma outra novidade! (Que aliás não é tão novidade assim, em 1922 parece que já passamos por algo semelhante)

YES, NÓS TEMOS TERREMOTO!

Ok. Sem alardes, sem vangloriar que sim, o apocalipse é cada vez mais uma realidade. Perdeu playboy, só não explana....
O que somos não é o que deveríamos ser. Um povo dito alegre e receptivo não encontra a mesma alegria e receptividade sempre. Seja nos EUA com a exportação via Minas Gerais por exemplo, seja com a exportação de estudantes para a Espanha. Nada mais desgostoso do que saber dessa míriade de possibilidades bem possíveis e bem prováveis (pra não ser redundante).
Sim, e onde se encaixa o pulo do tigre nisso?

Ora, ele não mais se encaixa. Ele não mais existe. Este blog, acho, está morto.